Para o pré-candidato a presidente, o uso do orçamento geral para pagar cachês astronômicos é uma inversão de prioridades que sacrifica o bem-estar da população em nome de ganhos eleitorais de curto prazo os eventos artísticos
O cenário político brasileiro viu subir o tom de uma discussão que, embora frequente nos tribunais de contas, agora ganha as redes sociais e os palanques: a farra das contratações com dinheiro público. O estopim da vez é o embate direto entre um pré-candidato à Presidência da República e o cantor Wesley Safadão, ícone da música nacional que frequentemente figura em contratos vultosos com prefeituras pelo interior do país.
O cerne da questão não reside na competência artística ou na popularidade dos músicos, mas sim na origem e no destino dos recursos. De um lado, defende-se o fomento à cultura e à economia local; do outro, aponta-se um desequilíbrio ético inaceitável diante de realidades municipais precárias em todo país
A crítica central levantada pelo pré-candidato foca em um ponto jurídico sensível. Embora a contratação de artistas por inexigibilidade de licitação seja prevista por lei, o montante desembolsado muitas vezes beira o absurdo quando comparado ao Produto Interno Bruto (PIB) de cidades de pequeno porte.
“A contratação pode até ser legal dentro do papel, mas torna-se imoral quando o cachê de um único artista equivale a meses de investimento em saneamento básico“, afirma o setor crítico da gestão pública.
Especialistas em direito administrativo reforçam que a administração pública deve ser regida pelo princípio da razoabilidade. Gastar milhões em uma única noite de entretenimento em cidades que sofrem com o desabastecimento de remédios ou infraestrutura escolar precária gera um contraste que choca a opinião pública.
O argumento de que os municípios “não podem se dar ao luxo” de utilizar o orçamento geral para tais eventos ganha força ao analisarmos as carências estruturais. Em muitas dessas prefeituras, os serviços essenciais operam no limite:
- Saúde: falta de insumos básicos e longas filas para especialistas.
- Educação: escolas necessitando de reformas urgentes e falta de profissonais .
- Infraestrutura: estradas vicinais intrafegáveis, ruas esburacadas e ausência de lixo de forma adequada
Para o pré-candidato, o uso do orçamento geral para pagar cachês astronômicos, como os frequentemente praticados por artistas do porte de Safadão, é uma inversão de prioridades que sacrifica o bem-estar da população em nome de ganhos políticos de curto prazo através da visibilidade dos grandes eventos.
Do lado dos artistas e de muitos prefeitos, o argumento é de que esses eventos movimentam o comércio local, hotéis e geram empregos temporários. Wesley Safadão, em ocasiões anteriores de polêmicas similares, já defendeu que o artista entrega um serviço contratado e que cabe ao gestor público administrar suas contas.
Entretanto, o embate atual parece ter ultrapassado a barreira do entretenimento, transformando-se em um debate sobre responsabilidade fiscal. A pergunta que fica para o eleitor e para os órgãos de fiscalização é clara: até que ponto o brilho de um show no palco justifica a escuridão nos serviços públicos essenciais?
Fonte: O Globo







