Governo Trump ataca a maior inovação financeira do Brasil para blindar o oligopólio das bandeiras de cartão de crédito e tentar frear a soberania digital do Sul Global.
A consolidação do Pix como o maior fenômeno de inclusão financeira da história recente do Brasil deixou de ser apenas um case de sucesso doméstico para se transformar em um campo de batalha geopolítico. Sob a batuta do governo de Donald Trump, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) subiu o tom contra o Banco Central (BC) brasileiro, acusando-o formalmente de promover uma concorrência “injusta e discriminatória” que supostamente prejudica empresas americanas do setor de pagamentos digitais.
A retórica de Washington, contudo, disfarça com o manto do “livre mercado” o que, nos bastidores das negociações bilaterais, é apontado como uma clara capitulação ao agressivo lobby das gigantes de cartões de crédito e da indústria de stablecoins.
O “crime” do Pix? Ser uma infraestrutura pública de alta eficiência, regulada pelo Estado e, acima de tudo, gratuita para pessoas físicas.
A acusação central reside no fato de o Banco Central acumular as funções de criador, operador e regulador da plataforma, além de exigir a obrigatoriedade de sua oferta por instituições financeiras com mais de 500 mil contas.
O incômodo com o modelo brasileiro desenha um nítido duplo padrão (dois pesos e duas medidas):
- A contradição do FedNow: os próprios Estados Unidos possuem sistemas de pagamentos instantâneos sob a chancela do Federal Reserve (como o FedNow lançado em 2023) e soluções privadas como o Zelle.
- O monopólio privado como regra: a diferença crucial é que o modelo estadunidense perpetua a dependência de grandes intermediários privados que extraem tarifas abusivas sobre cada transação. No Brasil, o Pix quebrou esse ciclo.
Ao classificar a gratuidade do arranjo nacional como “barreira comercial”, o governo Trump não está defendendo a livre concorrência; está tentando blindar as margens de lucro de bandeiras de cartões baseadas em solo americano (como Visa e Mastercard) e aplicativos de carteiras digitais que viram suas fatias de mercado minguarem diante da eficiência e soberania do sistema brasileiro.
Folha de S. Paulo







