Veja como municípios do interior paulista viraram referência em coleta seletiva do lixo e reciclagem

Exemplos de Bauru e Itapetininga mostram que a gestão de resíduos sólidos gera economia pública, estende a vida útil de aterros e serve de modelo viável para municípios de menor porte.

Separar o lixo de forma correta dentro de casa pode parecer um gesto simples, mas tem impacto direto na preservação ambiental, na economia dos municípios e no sustento de dezenas de famílias. No interior de São Paulo, as cidades de Bauru e Itapetininga estão desenhando um mapa do que pode ser o futuro da gestão de resíduos sólidos no país.

O modelo adotado por esses municípios serve de espelho, principalmente para cidades de menor população, provando que a receita que une coleta seletiva, parcerias com cooperativas e educação de base é o caminho mais curto para a sustentabilidade.

Quando uma cidade adota a reciclagem de forma massiva, os benefícios extrapolam a causa ecológica:

  • Diminuição das agressões ao meio ambiente: menos poluição do solo e da água.
  • Redução dos depósitos em aterros sanitários: menos volume de lixo descartado.
  • Aumento da vida útil dos aterros: economia milionária para os cofres públicos, que passam anos sem precisar abrir novas valas ou buscar novos terrenos.
  • Corte de custos na coleta: o município economiza no transporte e na taxa de destinação final do lixo comum.

Inclusão Social e Econômica – em Bauru (SP), as cooperativas de catadores recebem diariamente toneladas de materiais recicláveis recolhidos pela coleta seletiva. Uma delas é a ASCAM (Associação de Catadores de Materiais Recicláveis).

Nós recebemos aproximadamente 50% de todo o material reciclável em Bauru. São 39 tipos diferentes de materiais que passam pelo processo de separação antes de serem vendidos para reciclagem”, explica a administradora da cooperativa, Gisele Moretti.

Depois de percorrer ruas e bairros da cidade, os caminhões descarregam os materiais no galpão, onde começa um trabalho essencial para o funcionamento da cadeia da reciclagem. Contudo, para que a engrenagem funcione sem sobressaltos, a colaboração da população na ponta inicial é vital.

Há oito anos como catadora, Samanta Aparecida é uma das responsáveis pela triagem dos resíduos e faz um alerta sobre os riscos causados pelo descarte incorreto:

Pedimos atenção da população. Muitas vezes chegam agulhas e cacos de vidro misturados aos recicláveis. Isso pode causar acidentes com a gente que trabalha aqui. Eu tenho filhos para sustentar e esse trabalho é muito importante pra mim”, conta Samanta.

A renda que vem do trabalho dentro dos galpões também é o principal sustento de Zilda Cristina Custódio. “Eu chego aqui sempre bem cedo. E cada uma tem uma função. Esse serviço representa muito para nós. É o dinheiro daqui que uso pra criar meus filhos e netos. Quanto mais as pessoas colaborarem separando corretamente os materiais, melhor para todo mundo”, enfatiza.

Exemplo – para que a reciclagem funcione nas cidades, é preciso que os moradores coloquem em prática a separação dos resíduos dentro de seus lares. Em Bauru, a professora Renata Colletti já faz isso há anos e passou o hábito para a família. Entre embalagens recicláveis e restos de alimentos destinados à compostagem, ela mostra que pequenas atitudes diárias transformam a realidade.

Aqui em casa a gente sempre separou o lixo orgânico do reciclável. Mesmo quando estamos cozinhando, quase tudo vem em embalagens que podem ser recicladas. A caixa de leite, por exemplo, eu lavo rapidamente e também já separo”, explica a professora.

Além do lixo seco, a família mantém uma composteira para resíduos orgânicos. “São exemplos que passamos de forma natural. A pequena Flora, neta de Renata, já aprendeu a lição: “As cascas de banana vão para a caixa das minhocas, na composteira da vovó”, conta a criança.

Escola como incubadora de Cidadania – se a prática se consolida em casa, é na escola que ela ganha escala e se transforma em cultura integradora. Em Itapetininga (SP), a educação ambiental tem sido a principal ferramenta para incentivar mudanças de comportamento de longo prazo — uma estratégia perfeita para municípios pequenos que desejam iniciar seus programas de coleta seletiva com baixo custo e alto engajamento.

Em uma escola da cidade, alunos e funcionários participam ativamente da separação de resíduos. Garrafas plásticas, papelão e latinhas viram ferramentas pedagógicas sobre sustentabilidade e cidadania. Segundo a professora Anne Barros, a conscientização começa desde os primeiros anos de estudo:

Ensinamos as crianças a identificar as lixeiras corretas pelas cores. Já os alunos mais velhos desenvolvem projetos para ensinar os mais novos sobre a importância da separação dos resíduos.”

Após a coleta na escola, os materiais passam por uma nova etapa de triagem. “Chega bastante coisa misturada. A gente ajuda nessa separação para que tudo possa seguir para a reciclagem de forma correta”, explica a colaboradora Miriam Castilho.

No município, onde a coleta seletiva ainda não atende 100% dos bairros, o trabalho escolar ganha ainda mais relevância através da parceria entre a prefeitura e a COOPERITA (Cooperativa de Reciclagem), que atua há mais de duas décadas na cidade. Por mês, cerca de 40 toneladas de materiais passam pelo processo de triagem da cooperativa.

Para o aluno Bernardo, o contato com o tema no ambiente escolar é o que sedimenta a mudança: “É muito importante ter esse conhecimento sobre educação ambiental aqui. São temas mais presentes no nosso dia a dia. É algo que aprendemos na escola e que precisamos levar para a vida.”

Lições para os Pequenos Municípios

O cenário de Bauru e Itapetininga deixa claro que cidades de menor população não precisam de tecnologias caríssimas ou orçamentos astronômicos para revolucionar sua gestão de lixo. O segredo está em copiar esses modelos estruturados em três pilares simples:

Pilar da MudançaAção PráticaBenefício Direto
Educação de BaseParcerias com escolas e uso de pedagogia voltada ao meio ambiente.Formação de cidadãos conscientes que cobram e praticam a separação em casa.
Apoio a CooperativasFormalização e infraestrutura para associações de catadores locais.Inclusão social, geração de renda local e aumento da eficiência na triagem.
Logística Reversa e TriagemIncentivo à separação correta na origem (casas e comércios).Redução drástica do volume enviado aos aterros, gerando economia para a prefeitura.

Ao diminuir o volume de resíduos enterrados, as pequenas cidades protegem seus mananciais, economizam recursos públicos preciosos que seriam gastos na manutenção de aterros saturados e criam uma rede de proteção social que transforma o que antes era visto como “sujeira” em riqueza, dignidade e vida longa para o planeta.

Fonte: G1 Bauru-Marília

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