O bloco partidário: PP, União Brasil, MDB, PSD e Republicanos, foca na engrenagem de “criar dificuldades para vender facilidades”, de olho no controle de fundos partidários bilionários e das emendas parlamentares.
A política nacional assiste a mais um capítulo do ceticismo institucional em sua forma mais crua. À medida que o debate eleitoral se intensifica, as principais lideranças do bloco conhecido como “Centrão”, capitaneado por siglas como Progressistas (PP), União Brasil, PSD, MDB e Republicanos, adota uma postura cômoda de neutralidade.
No caso do PSD ocorre o pior dos mundos, apesar de ter candidato a presidente, a liderança nacional liberou seus diretórios estaduais e candidatos parlamentares para apoiar candidadtos de outros partidos. A ética e o compromisso de ideias partidárias foram jogados no lixo em nome dos votos parlamentares.
Longe de refletir maturidade democrática ou moderação ideológica, a decisão é o resultado de um cálculo estritamente mercenário dessas legendas, o futuro do Brasil e as propostas para saúde, educação e economia são meros detalhes irrelevantes.
O verdadeiro objetivo é abocanhar as maiores bancadas na Câmara Federal e no Senado para operarem a máxima do fisiologismo patróprio: criar dificuldades para vender facilidades.
A estratégia de deserdar o debate presidencial não ocorre por acaso. Ao optar por não coligar oficialmente com nenhuma chapa majoritária nacional, os partidos do Centrão evitam o desgaste natural de defender propostas e compromissos estruturais com a população. Em vez disso, voltam todas as suas forças e recursos para as eleições proporcionais (legislativo) e a formação de grandes bancadas no Congresso Nacional.
A lógica é perversa e eficiente. Com o controle de um contingente expressivo de deputados e senadores, o Centrão se torna um gargalo incontornável para qualquer presidente eleito, independentemente da matriz ideológica do vencedor.
Sem uma base parlamentar própria, o chefe do Executivo vira refém das exigências do bloco para aprovar qualquer projeto ou matéria orçamentária. É a consolidação do balcão de negócios no coração da República, onde a governabilidade não é construída com convergência de propostas, mas sim negociada voto a voto a preços altíssimos.
Não importa quem ganhar, o Centrão sempre estará participando do governo que vencer. O pragmatismo fisiológico supera qualquer compromisso ideológico ou programas de governo.
Por trás do discurso da “autonomia regional”, esconde-se a disputa voraz pelas gordas fatias do dinheiro público. Ao concentrar os recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) nas disputas para deputado federal e senador, o Centrão garante a blindagem financeira de seus quadros locais.
Caso integrassem formalmente uma chapa presidencial, parte substancial dessas verbas bilionárias teria de ser canalizada para a propaganda e estrutura majoritária. Sacrificar a candidatura presidencial é a saída mais lucrativa: mantém-se o dinheiro no caixa do partido para eleger os seus, garantindo, subsequentemente, um acréscimo ainda maior nas cotas futuras do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral.
Ademais, o inchaço da bancada abre as portas do Orçamento da União. O controle sobre bilhões de reais em emendas parlamentares permite a esses políticos irrigar base por base, prefeitura por prefeitura, asfaltando o caminho para a própria reeleição e mantendo um ecossistema de cooptação contínua.
Esse modelo, que frequentemente tangencia os limites da legalidade e facilita esquemas de corrupção, transforma o parlamento em uma máquina auto-sustentável de perpetuação de mandatos.
O cinismo do modelo fica evidente nas declarações e condutas pragmáticas adotadas nos estados. Em São Paulo, a liderança do PP admitiu abertamente que a neutralidade oficial liberou o diretório para apoiar o candidato Flávio Bolsonaro, precisamente porque essa aliança impulsionava a bancada de deputados federais paulistas. A ordem foi claríssima: poupar cada centavo do FEFC para os candidatos à Câmara.
Entretanto, ao cruzar as divisas até Pernambuco, o mesmo PP veste outra roupagem. No estado nordestino, pré-candidatos ao Senado pela legenda não hesitam em subir no palanque de Luiz Inácio Lula da Silva. A justificativa interna do partido não esconde a falta de escrúpulos: alega-se que a sigla possui “particularidades” e que, em determinadas regiões, é mais vantajoso colar em Bolsonaro, enquanto em outras, a sombra de Lula rende mais votos.
A frase de um pré-candidato pernambucano resumiu com precisão cirúrgica a filosofia que rege o grupo: a neutralidade é conveniente porque garante um assento na mesa dos vencedores, seja quem for o eleito.
A preocupação em torno do rumo das políticas públicas, da economia nacional ou das reformas estruturais do país cede lugar de forma absoluta à obsessão numérica por cadeiras no Congresso.
A avaliação estratégica interna do Centrão concluiu que um alinhamento formal rígido prejudicaria o desempenho eleitoral nos estados em que seus quadros dividem palanque com a oposição ou com correntes ideológicas distintas. Ao evitar a definição ideológica, os partidos preservam suas capitanias hereditárias estaduais, mas cobram um preço altíssimo da democracia brasileira.
O resultado desse jogo de cartas marcadas é um Congresso crescentemente hipertrofiado e descompromissado com metas nacionais, guiado puramente pela troca de favores de curto prazo.
Enquanto o Centrão celebra o sucesso de suas finanças partidárias e o poder de barganha garantido para o próximo mandato, o país padece sem debates sérios sobre seus problemas históricos. Dane-se o futuro do Brasil: para os donos do poder, a única coisa que importa é manter o balcão aberto.
Por Marco Antônio Mourão – Gestor sducacional e de pessoas, Professor aposentado, Sócio proprietário da Equipe Assessoria Educacional Ltda







